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Sua
companheira de várias
semanas era uma dor de
dente insuportável,
já nem conseguia
localizar onde doía
mais, queria arrancar
com as próprias
mãos o lado esquerdo
do rosto.
E por
não dormir mais,
não se alimentar
mais, não viver
para nada exceto para
a dor, tinha concordado
em se submeter à
extração
dentária.
Sabia o que o esperava.
Já havia assistido
a algumas sessões
daquele tipo específico
de tortura, sentado naquele
anfiteatro.
Naquela época,
o cirurgião dentista
se tornava renomado pela
velocidade com que trabalhava,
não importando
se extraía um dente
e destruía alguns
outros ao redor. Afinal,
a extração
era a única opção;
quando o dente adoecia,
não havia nenhuma
forma de tratamento.
No centro cirúrgico
tudo tinha que acontecer
rapidamente, ninguém
poderia suportar aquilo
por mais do que algumas
frações
de segundo. Mesmo amarrado
na mesa cirúrgica,
mesmo com quantidades
de álcool no sangue
suficientes para adormecer
um boi, o paciente, já
meio enlouquecido pela
dor crônica de dias
ou meses, era capaz de
lançar longe seu
algoz, com ou sem a causa
da dor presa no boticão
primitivo.
Mas, naquele dia daquele
ano de 1846, Pers e o
restante da humanidade,
sem saberem, estavam caminhando
sobre uma das interfaces
do destino.
Alguns meses antes, durante
a exibição
de um grupo circense que
utilizava o gás
hilariante em pessoas
da platéia, o dentista
Horace Wells se encheu
de coragem, subiu ao palco,
inalou o gás e
saiu pulando e rindo,
pouco se importando -
porque estava sob o efeito
do produto químico
- de que todos riam dele.
Ao passar o efeito do
gás, Wells desceu
as escadas, driblando
os sorrisos marotos, desconfiado
de que fizera alguma coisa
estranha ao seu sempre
discreto comportamento.
Evitou olhar para sua
jovem esposa que, assustada,
apontava para a perna
do seu marido. A calça
estava encharcada de sangue
e sob ela havia um grande
ferimento na pele. Wells
imediatamente correlacionou
causa e efeito. Sob a
ação do
gás, não
sentira dor, apesar do
feio corte em sua canela.
Pers entra no centro cirúrgico,
gemendo de dor e de medo,
tentando controlar a agitação
de suas pernas, que querem
levá-lo para fora
de lá.
Não dá mais
tempo!
É amarrado na mesa
e dois homens fortes o
seguram. Pers se agarra
na beirada da cama e o
cirurgião dentista
se aproxima com seu paletó
preto cheirando a sangue
e pus (naquela época,
quanto mais sujo de sangue
e pus estivesse o paletó,
mais experiente e procurado
era o cirurgião).
Ele abre a boca de Pers,
olha a cavidade escura,
adivinha onde estão
os dentes podres, pega
o boticão. Pers
não consegue se
mexer, o pavor o mantém
paralisado, quase não
são necessárias
as quatro mãos
de aço que o imobilizam.
O cirurgião se
dirige à platéia:
- Temos hoje aqui um jovem
dentista que insiste em
demonstrar uma técnica
a qual, diz ele, vai me
permitir extrair os dentes
deste cavalheiro, sem
dor. Todos sabem como
gosto de me divertir,
principalmente quando
inventam absurdos. Vamos
ver qual o artifício
usado pelo colega.
E virando-se para Wells,
disse: - O paciente é
seu!
Wells olhou para Pers,
que abriu a boca mas não
conseguiu dizer nada.
- Você quer extrair
seus dentes sem dor?
Pers só conseguiu
piscar seus olhos muito
arregalados, o que podia
ser sim, como podia ser
não. Nada mais
podia se mover em seu
corpo, exceto os olhos!
Wells se aproximou e fez
com que Pers inalasse
o gás. Pers fechou
os olhos.
Wells se afastou, o cirurgião
se aproximou, abriu novamente
a boca do paciente, prendeu
o boticão no primeiro
dente e puxou.
Silêncio.
O cirurgião prendeu
o boticão no segundo
dente e puxou.
Nada.
O cirurgião disse:
- Senhores, este homem
não está
morto, isto não
é uma farsa.
Sabemos que, pela primeira
vez na história
da humanidade, dentes
foram extraídos
sem dor. Não sabemos
se Pers sobreviveu à
falta de assepsia, à
hemorragia ou ao choque
pós-operatório.
Mas dor, naquele momento,
com certeza não
sentiu.
A homens como Wells devemos
os grandes avanços
da ciência. Seres
como ele modificam o mundo,
porque identificam, no
momento do acontecimento,
as suas correlações
e conseguem ajustar as
peças do puzzle
que cria os novos conhecimentos.
Hoje, apesar de ainda
existir muita adrenalina
circulando na cadeira
do dentista, podemos nos
considerar privilegiados.
Bastaria para Pers uma
escova de cerdas macias,
um fio dental, o flúor
e algumas pitadas de disciplina
e amor próprio
e ele não teria
sofrido tanto.
Se ele estivesse neste
século, é
claro!
Obs: estes fatos são
verdadeiros. No entanto,
foram cometidas algumas
licenças históricas
para contarmos esta história.
Na verdade, Wells realmente
descobriu a anestesia,
mas, na primeira vez que
foi utilizá-la,
tudo deu errado. O paciente
era muito gordo, Wells
ainda não conhecia
bem o gás e utilizou
pouca quantidade do anestésico,
o homem gritou muito e
todos os médicos
e dentistas, presentes
no anfiteatro, riram dele.
A partir desta data, Wells
passou a cometer delitos
e se suicidou em uma cadeia
em Nova York.
Nem tudo pode ser perfeito.
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